Comentário da lição 2009-09-26 PDF Imprimir
Escrito por Moises Sanches   
Qui, 24 de Setembro de 2009 16:04

Poder... Como podem cinco letras nos causar tantos problemas?

A lição desta semana apresenta um tema tremendamente complexo de se discutir.

Tanto poder, quanto a luta por ele, parecem permear as bases das relações e da natureza desde que temos notícia da existência das coisas.

Esse tema me faz lembrar que no início da década de 90 (vários de vocês não eram nascidos, ou eram ainda bem pequenos...rsss), foi lançada uma propaganda na TV cujo mote era o seguinte: "Isso é amor antigo, legítimas, só....(suprimido por razões ideológicas ou publicitárias....).

Essa a exata dimensão do problema em questão...

De fato esse é um amor antigo, presente no início das tratativas da criação. Em Apoc. 12 encontramos a origem da saga - "houve batalha no céu...".

De lá pra cá, o que temos assistido é uma sucessão de mandos e desmandos de toda a ordem, que se equivocam no ter e no exercer poder.

De certa maneira, a brecha aberta por Lúcifer em sua disputa de poder, se enraizou na humanidade a ponto de relativizar o Poder de Deus, ao mesmo tempo em que cristaliza o exercício do poder no coração do crente.

A despeito de qualquer discussão filosófica, uma coisa é certa: o poder está !! Não é uma ilusão de ótica, uma distorção da realidade, uma fantasia... não!! O poder está.

Está em todas as relações conhecidas, entremeia todas as sociedades, grupos, tarefas, em suma, onde houver seres vivos se relacionando, racionais ou não, o fato é: o poder está ! !

Se o poder está, então temos dois caminhos para adotar na discussão, podemos discorrer sobre o estado das coisas à partir das relações de poder, estudarmos suas diferentes formas de apresentação, seus resultados, suas possibilidades, seus equívocos, mas, esta me parece uma discussão empobrecida de essência. Encantadora sim, pois tem sido objeto de formatações diversas, e ampliam livros desde que mundo é mundo, basta olhar pra Aristóteles, Platão, SunTzu, "Maquiavel", Secondat (Montesquieu), Marx, Durkheim, Pareto, Weber, e tantos outros clássicos desta discussão.

Há porém, uma segunda possibilidade, discutirmos poder antes do estado. Em lugar de "o poder está": O Poder É !

Entrar por esse caminho é como resolver atravessar uma floresta de mata fechada, muitas vezes desconhecida, mas que pode ser promissora para a partir dela entendermos um pouco da origem das coisas, e, quem sabe, lançar um pouco de luz sobre o ESTADO das coisas. Se conseguirmos encontrar alguma luz sobre o que o poder é, talvez fique mais claro por que ele está.

Novamente nos deparamos com um problemão. Por onde começar?

Como não temos disponível pra estudo elementos sobre a origem do universo, o máximo que podemos fazer é resgatarmos nossa própria história - a origem deste pequeno planeta escondido no "rabo da curva gaussiana" da via láctea (os estatísticos de plantão vão entender o trocadilho).

Escolhi então começar pelo dicionário na tentativa de encontrar uma definição do que é poder, como ele se apresenta, para onde aponta a palavra.

Me chamou a atenção o fato de que há duas apresentações de poder: a Verbal e a Substantiva. A essa altura minha filha do 6o ano do fundamental me diria: Dämn!! Só você não sabia!! rsss...

Mas é sério, isso é mais importante do que a priori possa parecer. Só pra começar, enquanto a forma verbal me apresenta aspectos ligados as razões de poder, quem pode, porque pode, quanto pode, como pode, a forma substantiva me direciona a pessoa que pode, me levando a pensar nos aspectos do ser que pode, sua essência, sua constituição, o que lhe confere poder.

 

Veja o que o dicionário me apresenta na forma substantiva.

 

PODER É:

 

1. Possibilidade, faculdade, força física, vigor do corpo ou da alma.

Esse primeiro bloco conceitual me faz lembrar do Gênesis, particularmente, as seguintes passagens: Gen. 1:26-29, 2:7 e 2:17-30.

Quais as possibilidades, faculdades, força, vigor, estruturas, etc... que compunham o sujeito provindo das mãos do Criador. Só essa área dá um comentário inteiro, mas vou me ater a um texto:

"Deus criou o homem à Sua própria imagem. Não há aqui mistério. ... O homem deveria ter a imagem de Deus, tanto na aparência exterior como no caráter. Cristo somente é a "expressa imagem" do Pai (Heb. 1:3); mas o homem foi formado à semelhança de Deus. Sua natureza estava em harmonia com a vontade de Deus. A mente era capaz de compreender as coisas divinas. As afeições eram puras; os apetites e paixões estavam sob o domínio da razão. Ele era santo e feliz, tendo a imagem de Deus, e estando em perfeita obediência à Sua vontade. ... Ao sair o homem das mãos do Criador era de elevada estatura e perfeita simetria. O rosto trazia a rubra coloração da saúde, e resplendia com a luz da vida e com alegria. " Patriarcas e Profetas, p. 45

Poder substantivo decorre deste ato criativo de Deus. É nessa dimensão que se manifesta o poder do ser humano. Qualquer poder que não resulte deste tipo de ser humano, não será poder substantivo, mas, adjetivo. Ao deslustrar o pecado a natureza humana, o conceito de poder se altera na mesma dimensão. Há uma infinidade de lições que podem sair deste bloco. Vou pinçar apenas uma: Ao tentarmos exercer poder sobre algo ou alguém, não podemos perder de vista que não temos mais (no sentido perfeito do termo) a imagem, a harmonia, a mente, o domínio das paixões, a santidade, a felicidade, a obediência perfeita, a elevada estatura, a perfeita simetria, a vitalidade e saúde, e todos os demais atributos que nos "empoderavam".

É nessa medida de completo desprovimento que deveríamos nos enxergar ao nos julgar poderosos para alguma coisa. O que se dispõe a liderar deve manter viva em sua mente sua própria condição. Daí resulta a lição interessante de João se auto-denominar ancião, mesmo cônscio de que era apóstolo.

2. Império, soberania, mando, autoridade, posse, jurisdição, domínio, governo.

Este segundo conjunto de conceitos abriga as questões do exercício do poder, que emerge do ser que o detém. Por causa do que o ser humano É, ele PODE.

O imperativo aqui é: "PODE o que?", "Sobre o que?", e por fim, "sobre quem?".

A inspiração nos revela o seguinte:

"Aquele que estabeleceu os mundos estelares nos altos céus, e com delicada perícia coloriu as flores do campo, Aquele que encheu a Terra e os céus com as maravilhas de Seu poder, vindo a coroar Sua obra gloriosa a fim de pôr em seu meio alguém para ser o governador da linda Terra, não deixou de criar um ser digno das mãos que lhe deram vida. ... Ele foi posto, como representante de Deus, sobre as ordens inferiores de seres. Estes não podem compreender ou reconhecer a soberania de Deus, todavia foram feitos com capacidade de amar e servir ao homem. Diz o salmista: "Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das Tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés: ... os animais do campo, as aves dos céus, ... e tudo o que passa pelas veredas dos mares". Sal. 8:6-8." Patriarcas e Profetas, p. 45

Some-se a esse texto o de Gen. 1:26 e 28. Aqui está o terreno espinhoso da discussão.

No mundo da perfeição não há exercício de poder. Em seu lugar existe a idoneidade. O poder na terra é entre homens e criaturas "inferiores".

Nos planos de Deus a hierarquia se moldava pela distinção dos seres - Deus - os anjos - o homem - os demais seres da criação.

Essa ordem se alterou com o pecado. A primeira referência de domínio aparece na discussão de quem manda mais, Cristo ou Satanás. Essa mesma discussão se transfere ao ser humano na proposição de Satanás para Eva - sereis semelhantes a Deus, o que por sua vez se transfere ao restante da raça nas resultantes do pecado - Teu desejo será para teu marido e ele te dominará.

Digo que esse terreno é espinhoso para a discussão pelo simples fato de que o exercício de poder entre seres humanos é resultado do pecado e não da perfeição.

Semelhante ao que vimos na lição da semana passada, esse é mais um daqueles contingenciais(mal-necessário) do hiato do pecado. Aquele tipo de regra emergencial para resolver um problema, e que na essência não guarda a solução, mas um novo problema.

Sendo assim, qual é o princípio correto da prática de governo, poder, domínio, etc.. à luz da Bíblia?

Novamente podemos desenhar uma porção de pensamentos sobre isso, mas vou me restringir à apenas dois:

a. o amor - submissão e governo devem ter como fundamento o amor. Quem exerce poder o faz na disposição de pagar o preço que Cristo pagou - morrer pelo outro. Por sua vez, quem é submisso deve fazê-lo por amor genuíno, como devoção resultante da percepção de que o amor de Deus preenche o coração de líderes e liderados.

b. a verdade - submissão e governo devem ter como pressuposto a verdade plena, pura e perfeita que procede de Deus. Nenhuma segunda intenção, nenhum dolo, transparência e ética banhadas na justiça de Cristo.

Qualquer exercício de poder que não se fundamente nesses pressupostos, além da profunda convicção da pecaminosidade humana resultarão em subserviência (em lugar da submissão) e em tirania (em lugar de governo). Só pra lembrar, no escopo do governo e domínio cristãos, se desenha o espírito de serviço e colaboração.

O exercício deste tipo de poder nos conduzirá ao último bloco de definições do dicionário:

3. Força, influência, importância, consideração, abundância, eficácia, efeito, virtude.

É o tipo de resultado que se espera da liderança cristã. Força que resiste aos laços sutis de satanás, influência que transforma a vida daqueles que entram em contado com líderes ou liderados, importância atribuída ao que de fato a merece - Deus, consideração pelo esforço e necessidade dos semelhantes, abundância de bênçãos sobre os que desfrutam de um governo que se embasa do amor, eficácia do ministério pela ausência de egoísmo e desamor, efeito multiplicador pois o mundo saberá que somos discípulos do Cristo quando a virtude de amarmos uns aos outros se manifestar.

Qual o segredo para que o mundo perceba que esse tipo de poder é o que se faz presente entre os filhos de Deus?

Penso que a forma verbal de poder nos apresente luz para essa questão.

 

Assim reza o dicionário para a forma verbal:

PODER É:

Ter a faculdade de, Ter ocasião ou possibilidade de, Estar sujeito a, Ter força para, Ter razões para..

O grande detalhe que diferencia a forma substantiva da verbal é que enquanto a primeira apresenta as coisas da essência do ser, a segunda apresenta as coisas que de fato podemos pelo ter pelo que agora somos. Ser poderoso é diferente de ter poder. Ser forte é diferente de ter força. Parece sutil, mas faz toda a diferença.

O cristão não é forte, mas pode tudo Naquele que o fortalece. O cristão não tem domínio mas domina tudo, inclusive a si mesmo quando se submete a vontade de Cristo. O cristão não sabe das coisas, a não ser quando deposita suas próprias convicções no banco da verdade suprema, aquela de João 8:32.

A essência de tudo está em Marcos 10:42-44 - "Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos."

É insano negar que precisamos de governo. O mundo de pecado impôs, entre tantas desgraças, mais essa. A questão importante é entendermos que se de alguma maneira somos chamados a liderar alguma coisa, governar algo, coordenar tarefas, devemos fazê-lo com a percepção constante de nossa mais completa indignidade. Somente assim estaremos livres dos dardos venenosos do inimigo que nos inflamam com a idéia de que podemos ou somos alguma coisa sem a graça de Cristo.

Nisto consistia o erro de Diótrefes. Também nisto residia a liderança de João, a humildade de Demétrio, o espírito de serviço de Gaio.

“Assentando-se, Jesus chamou os Doze e disse: ‘Se alguém quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos’” (Mc 9:35, NVI)

Que o amor e a misericórdia de Cristo nos inunde o ser, e complete em nós a transformação necessária para que esse tipo de cristianismo (quer sejamos líderes ou liderados) se manifeste entre nós e possamos vê-lo voltando para levar Seu povo para o Lar Eterno.

 

 

(E então, no espírito do velho homem, eu diria a minha filha agora: - "Minha vez de dizer Dämn!!" -- Mas isso, NÃO PODE !! É feio.)

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