| Os físicos e a Bíblia |
|
|
| Escrito por Bruno Grange |
| Sex, 16 de Abril de 2010 18:58 |
|
Uma conversa sobre a origem do universo com o emérito Cesar Lattes, que considera Einstein um plagiador, e Marcos Danhoni, outro físico divergente que também ataca a dogmatização da ciência Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. – No princípio, Deus criou os céus e a terra. Foi assim que começou o diálogo entre a repórter e o físico Cesar Lattes, professor emérito da Unicamp, na manhã de 19 de julho. O peso do livro do Gênesis foi maior que o dos livros todos reunidos na Bíblia pousada sobre o sofá, lida pela jornalista a pedido do cientista. Dia agradável, ensolarado, na casa simples e acolhedora do distrito de Barão Geraldo, em Campinas, onde se abriga a família de um maiores cientistas do mundo. Em 1947 o professor descobriu o méson-pi, depois de expor chapas fotográficas muito sensíveis, conhecidas como emulsões nucleares, à altitude de 5,6 mil metros do Monte Chacaltaya, na Bolívia, onde a detecção dessas partículas seria presumivelmente mais favorável. “Mas mais emocionante foi detectar os mésons produzidos artificialmente, com Eugene Gardner, em Berkeley”, relembra o mestre. Bobagem, como diria ele. Lattes, apesar de ótimo observador, é uma criança. Brincalhão, irreverente, mostra as fotografias pregadas nas paredes de sua biblioteca maravilhado, como se também as visse primeira vez. “O patrão aqui sou eu. O manda-chuva é aquele com o cigarrinho na boca”, diz, apontando para a fotografia do pai, Giuseppe, num pequeno quadro pendurado. “O patrono maior é esse aqui embaixo”, acrescenta, indicando outra fotografia, a do físico dinamarquês Niels Bohr, prêmio Nobel em 1922 por apresentar a teoria sobre a estrutura atômica e espectros atômicos. “Ele (Bohr) foi um filósofo natural. E lá em cima está o maior do século, sabe quem é?”, pergunta. “Ernst Rutherford”, ensina, sobre o físico inglês que em 1911 revelava, por meio de sua experiência, a existência de um núcleo atômico. “Dois monstros. O Rutherford, mais pé no chão. O Bohr, um pouco visionário: fim da vida dele foi tentando convencer os norte-americanos a não fazerem a bomba atômica”. Curitibano, Cesar Lattes foi um dos criadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e tornou-se professor da Unicamp em 1967. Não vai mais à Universidade. “Às vezes ela vem a mim”, afirma, desacreditado quanto aos moldes da educação atual. “Digo hoje para os estudantes de Física: assistam às aulas teóricas, mas façam a parte de laboratório e, se possível, construam sua aparelhagem”. E para os físicos: “Ah, se eles são físicos mesmo, não tenho nada a dizer, eles sabem o que estão fazendo. Agora, para os que estão na pós-graduação, digo: não façam, porque ciência se aprende fazendo; não deixem que modelem sua cabeça”. Lattes é apenas bacharel. “Acho que, como bacharel, fiz bastante coisa”. À sua frente, contudo, o professor Marcos Cesar Danhoni Neves, mestre em Física e doutor em Educação pela Unicamp, lamentga: “Não é mais possível deixar de se submeter a uma pós-graduação, porque infelizmente toda a estrutura está montada para te ver doutor”. Danhoni, apesar de escolado, defende o pensamento intuitivo e prega a popularização da ciência por meio da literatura, temas de seu livro Memórias do Invisível – Uma Reflexão Sobre a História no Ensino da Física e a Ética na Ciência. Jornal da Unicamp – O que o senhor acredita ser aceitável para explicar a origem do Universo. Cesar Lattes – A realidade objetiva, a realidade no duro, é a resultante da superposição de todas as vontades: animais, vegetais, minerais e objetos manufaturados. Tudo tem alma. Até esse fósforo que acabei de acender. Vamos falar de Universo: cada ser é um Universo. Dizem que existem infinitos Universos. Eu não consigo conceber o conceito de infinito. Então, da origem de qual deles vamos falar? Das galáxias? Olha, eu acredito nesse livro aqui (bate na capa da Bíblia). Professo acreditar no que o cientista fala – porque é assim que ganho dinheiro como professor –, mas eu não acredito, acredito na Bíblia. As galáxias, dizem eles, está na moda, e o Big Bang, o traque enorme há 18 bilhões de anos, originou o Universo. Mas apareceu onde? No espaço e no tempo. Deus criou a matéria. Então, a origem do Universo, de acordo com os bobocas dos astrônomos, foi há 18 bilhões de anos. Só que o Sol existe apenas há 5 bilhões de anos... Eles dizem também que o Universo está em expansão. É o que dizem. JU – E o senhor, o que diz? Lattes – (Bate cinco, seis vezes sobre a Bíblia) JU – Se a teoria do Big Bang ainda é aceita, não em sua essência, mas em algumas nuances, podemos questionar de onde veio a matéria antes da grande explosão... Lattes– Deus criou. E eu não brigo com astrônomos por isso, porque eu não os levo a sério. JU – Se formos falar nas teorias atuais... Lattes – Quais? Temos a budista, a da Santa Igreja Católica e as que ensinam nas universidades ocidentais... JU – Qual a avaliação que o senhor faz da discussão de teorias recentes sobre a origem do universo nas universidades? Lattes – Charlatanice! Porque falam de coisas sobre as quais não se pode fazer experiência. O conhecimento vem da observação. E, mediante a observação, a gente faz medidas em geral para chegar às leis. O que se pratica nas universidades é muito limitado. Para se abrir a observação é preciso trabalhar. JU – Quais as principais diferenças entre a Física de hoje e a praticada há 50 anos? Lattes – Muito mais charlatanesca, porque o pessoal fica falando bobagens... Big Bang, materialização da energia... Energia não se materializa, energia é energia. Eu estou escrevendo um tratado, cujo título é “Tempo, Espaço, Matéria e Velocidade Limite”, ou “Energia, Momento, Massa e Velocidade Limite”. Você não pode materializar energia. Estudar a expansão do Universo é difícil. A gente pode tentar observar o Universo. Mas o estudo só é válido se houver observação. Só teoria é conversa. Tem expansão contínua, pré-expansão... Posso falar uma palavra chula? Teoria é masturbação. As mulheres não conseguem mais domar os homens e eles vão para os laboratórios e ficam se masturbando. JU - Apesar de ser um físico da nova geração, a avaliação do professor Marcos também é crítica em relação ao que se ensina nas universidades... Lattes– Pós-graduado... Danhoni – Pós-graduado na Unicamp, também tenho uma pós-graduação em Educação. Ou seja, tenho um pé nas ciências ditas exatas, que de exatas não têm nada, e um pé nas ciências humanas, o que já é considerado para a academia uma coisa complicada, apesar de se falar em interdisciplinaridade. Lattes – Espera, espera! Você é órfão? Danhoni – Não. Lattes – Então, pós-graduação em Educação, não. Quem educou você foram seus pais. O que a pós ensina é bobagem. (Risos) Danhoni – É. Digo que sou um contestador, educador, divulgador da ciência. Porque quando se diz “você é físico”, parece que a gente tem de comungar da grande “igreja acadêmica”. Muitas teorias querem indexar o real à realidade objetiva e dizer que isso é a fotografia do real. É quando muitos deixam de fazer ciência para fazer sacerdócio. E nisso eu me aproximo do que o professor Lattes diz, que esse ensino visto hoje é muito dogmático. É uma educação que não estimula a criatividade, o pensamento divergente e não sabe trabalhar com esse tipo de atitude. Você é condicionado – e não educado – a ser um solucionador de problemas. Artigo enviado pelo membro da Classe Isaias Vizzoto. Artigos Relacionados: |

